JJ Marreiro No Zine Brasil!!

 

 Muito atencioso desde do primeiro instante que entrei em contato com ele, JJ Marreiro é um daqueles caras que, aqui no nordeste o pessoal chama de “Um cara arretado”, um dos Quadrinhistas mais conhecidos entre nossa geração de amantes da nona arte, especialmente dos amantes dos Quadrinhos Nacionais, JJ é professor de desenho,ilustrador publicitário, editor independente e um Estudioso dos Quadrinhos como poucos, tem um traço muito conhecido e que pode ser visto mensalmente na revista Wizard, na coluna “ Universo HQ” editada por Sidney Gusman. O Zine Brasil orgulha-se de poder apresentar a vocês mais essa entrevista, e esperamos apresentar muitas outras em breve, agradeço a todos os visitantes pelo apoio e comentários e agradeço também aos artistas que como JJ Marreiro, tem conseguido separar um tempinho no meio de tantas tarefas, para colaborar com o Zine Brasil nessa luta pela divulgação dos Quadrinhos Brasileiros. Valeu por tudo e continuem colaborando!Hehehehehe. Beijão a todos, e curtam mais essa entrevista.

JJ Marreiro.

Acesse: http://fotolog.terra.com.br/laboratorio_espacial

Contato: jjmarreiro@yahoo.com.br

 

Como você descreveria JJ Marreiro?

Menina, mas que pergunta danada. Eu sempre entro num processo meio maluco quando me fazem essa pergunta... Bem, o JJ é um sujeito que adora contar histórias e procura formas de passar adiante essas histórias como der.

*Numa entrevista você chegou a dizer que fazer Hqs no Brasil era um ato de Fé, então por que trabalhar com Quadrinhos?

Eu tenho fé. Estou fazendo minha parte, sei que publicar é uma grande dificuldade não só pra quem ta começando, mas pra todo artista brasileiro. Mas ficar parado e falar mal da situação não muda nada. Eu reclamo pra caramba das Editoras, ou melhor, Republicadoras de quadrinhos no Brasil, mas ficar só de blá-blá-blá esperando a oportunidade cair do céu não adianta. Tem que arregaçar a manga e mandar brasa. Se não dá pra editar seu material todo colorido com capa dura, vai do jeito que der com toda qualidade possível ao alcance dos meios independentes.

*Observando o atual estado do Mercado Nacional, o que o futuro estaria reservando para os Quadrinhos Nacionais?

Já ouviu a expressão adivinhar é pecado?! Her-her-her. O melhor que a gente pode fazer pelo futuro é trabalhar muito hoje. Estudar, aprender coisas novas, todo dia, também são vitais pra evoluir e também procurar evoluir o lado humano. Às vezes é muito difícil aceitar que existem pessoas diferentes com pensamentos e preferências próprias, se a gente aprender a lidar com a diferença e respeitar o outro já é um bom começo. É muito estranho ver os leitores de quadrinhos se dividirem em blocos, os leitores de mangá de um lado, os leitores de quadrinho europeu de outro, os que adoram quadrinho nacional, os que odeiam quadrinho nacional... Puts. Tudo é arte seqüencial, rapaz. Pra quê a briga?! Quadrinho, Cartum, Charge, Tira mesmo com suas especificidades possuem mais afinidades que dessemelhanças.

 

*Falando de você: Como é a rotina de JJ Marreiro?

Quase todo dia faço uma lista de prioridades como se fossem missões. Cada missão cumprida é eliminada. Depois de eliminar a lista toda, dou um tempinho pra ter a sensação momentânea de que estou totalmente ocioso e aí faço outra lista. Minhas listas atuais contem meus compromissos como aluno de graduação de Comunicação Social, ilustrador, professor de desenho, tirista, co-editor do Manicomics e assessor de comunicação de mim mesmo.

*Em que trabalhos está envolvido atualmente?

Além da ilustração mensal da coluna do Sidney Gusman na revista Wizard, estou adiantando projetos ligados a alguns meus personagens. Alguns desses projetos estão em fase experimental outros já estão decolando como, por exemplo, a disponibilização de hqs da Mulher-Estupenda em fanzines e websites. Estou procedendo alguns estudos acadêmicos na área da comunicação que tem a arte seqüencial como base. Também estou ligado atualmente à produção de um material institucional para o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará.

*Como foi a criação de seus personagens?

Cada personagem reflete uma faceta do autor ou é fruto de sua observação de algum aspecto da realidade. O primeiro personagem que criei era uma porcaria, horrível. Não que ele fosse feio, o coitado, mas era uma cópia piorada de um monte de gibi que eu lia. O nome dele era Levram... Marvel de trás pra frente. Mas é perdoável se a gente souber que ele foi “criado” quando eu tinha 8 anos de idade. Depois de muito tempo, continuei a ler quadrinhos, entre outras coisas e comecei a jogar RPG e levei meu personagem da mesa de jogo pras páginas das histórias em quadrinhos. Mesmo que ele ainda fosse parecido com outras coisas mais conhecidas deu certo porque foi publicado num fanzine e muitos leitores começaram a criar personagens parecidos. O Zorhn, esse personagem de que estou falando era um elfo brigão, taludo feito um guarda-roupa e tão delicado quanto um elefante numa cesta de pintinhos. Já com os personagens da tira Lucy & Sky o desafio era outro, assim como o tema. Eu sempre achei que a história era muito mais importante que o desenho dentro de uma hq. Em Lucy & Sky quis trabalhar esse conceito e dar mais ênfase ao conteúdo. O engraçado é que tem muita gente que gosta mais do desenho que dos textos.

A série de HQs da Mulher-Estupenda surgiu da minha dificuldade de trabalhar com super-heróis. Pode não parecer, mas escrever super-heróis é muito difícil porque os autores modernos querem dar credibilidade a esses heróis, dar dimensão às suas vidas, profundidade... Um cara que faz tudo isso muito bem é o Allan Moore e aqui no Brasil, o Leonardo Santana. O que eu queria era bem diferente disso... Concluí então que já que a gente sempre aprende tudo se espelhando nas gerações anteriores nada melhor que tomar como referencial as primeiras hqs que eu li. Shazam, Batman (do Dick Sprang), Super-Homem (Al Plastino, Wayne Boring, Curt Swan), Raio Negro (Gedeone) e por aí vai.

*Atualmente como é seu método de trabalho?

E Antes de cada História em Quadrinho que escrevo faço uma pesquisa de leitura e uma pesquisa visual. Junto algumas xerox, seleciono alguns quadrinhos e fotos. Depois, sento, escrevo uma sinopse e faço alguns esboços. Se for uma hq acima de 4 páginas escrevo o roteiro e depois desenho. Se a HQ tiver cerca de 4 páginas desenho sem roteiro. Faço uma reflexão antes de cada seqüência e mando bala. Assim acabo trabalhando 3 ou 4 hqs em paralelo. Acontece com livros também. De vez em quando me flagro lendo 3 ou 4 livros em esquema de revezamento. Pode parecer confuso, mas comigo funciona.

*Quais os tipos de assuntos você prefere abordar em suas histórias? E por que?

As HQs que tenho elaborado ultimamente trazem o velho conflito entre o bem e o mal, o certo e o errado. Estou meio saturado desse negócio de quadrinho adulto, tramas maduras, existencialistas e etc. Acho que as pessoas estão precisando redescobrir as noções básicas de ética, de moral, de certo e errado e os quadrinhos são assim como as fábulas uma excelente maneira de abordar esses temas.

*Qual sua opinião sobre a onda de sexo e drogas nas Hqs?

Estes são temas importantes a serem discutidos, faz parte da vida das pessoas e estão em todos os meios de comunicação. O legal é quando você vê que tem algum material institucional que aborde o tema sem falso-moralismo. É difícil ver um quadrinho institucional que não seja moralista. Os clientes estão sempre insistindo em forçar os autores a escrever coisas do tipo “faça isso, não faça aquilo” ao invés de mergulhar o leitor na experiência, fazer com que ele viaje dentro do tema e o trazer de volta com a sensação de que ele pode ficar a salvo com algumas atitudes preventivas.

Vou dar uma parada aqui, (estrategicamente é claro) depois que receber as respostas enviarei mais perguntas.

Fique tranqüila. Achei esse seu método sensacional. Acaba rolando um bate-papo bem descontraído. (Eu ficava me perguntando como é que você conseguia arrancar tanta informação dos entrevistados, mas agora já sei como é (risos)).

Afinal estamos conversando não é mesmo? hehehe. Abração.

 Pois é... Essa é uma daquelas prosas que a gente tem com os amigos, tomando um cafezinho antes de encerrar o dia... Eu acho o café uma das grandes descobertas da humanidade. Até mais, Michelle.

È verdade o bate papo é sempre bom acompanhado de algo bem gostoso para beber, você fica com café... Eu não tomo, prefiro um bom suco de Graviola com leite hehehehe. Mas vamos ao que interessa. Quando se observa o conteúdo dos comerciais  e aberturas de muitos programas de Tv, é possível notar o grande número de Ilustrações, Charges, Cartum, enfim, se observa o Quadrinho em vários lugares, como, por exemplo, o novo desenho, criado pela Mtv: "A Mega Liga". Porém quando se chega na hora da divulgação dos quadrinhos, a única coisa que o jornal mostra é sempre eventos de Fãs de Quadrinhos Orientais. Muitos de nossos artistas estão trabalhando para o exterior, fazendo um tremendo sucesso, mas em termos de Quadrinhos Nacionais a única coisa conhecida ainda é a Turma da Mônica e o Menino Maluquinho. Qual seria a razão ou uma das razões para que o Quadrinho Nacional não tenha o espaço que merece na mídia?

Mega Liga

Tino empresarial. Temos ótimos artistas nos quadrinhos e na área da animação também, mas tempos poucos artistas com tino empresarial, com noções de Marketing, Administração, Vendas. Admiro muito caras como Don Cabral, Cedraz, Lailson e Zappa que conciliam o lado artístico com o lado empresarial.

Isso é uma verdade, mas Voltando a falar de você. Quando fazemos algo que não nos dá retorno financeiro, como no caso dos quadrinhos a maioria das pessoas, amigos e familiares, passam a não dar importância e às vezes até ridicularizar nossos objetivos os considerando infantis, fazendo com que a maioria de nós, não fale sobre seu trabalho como desenhista ou escritor de Quadrinhos. Existe esse momento na sua Vida? Aquele momento em que você não pode falar sobre aquilo que mais gosta de fazer? O momento em que JJ Marreiro, não pode ser "O JJ Marreiro que nós conhecemos?".

A gente sempre anda em vários ambientes e sempre está exposto a realidades distintas. É comum você se encontrar numa roda de amigos em que ninguém lê histórias em quadrinhos de um gênero ou outro, mas todo mundo um dia já leu uma tira ou viu uma charge engraçada. Os quadrinhos têm mais força do que imaginamos. A época em que estive mais distante dos quadrinhos foi quando resolvi ser aspone num escritório de advocacia, também teve a época em que freqüentava a faculdade de Engenharia e depois quando comecei a fazer conservatório de música. Eram ambientes bem legais, mas não me enquadrei em nenhum deles. Hoje, lidando com comunicação, as coisas parecem mais naturais. Quanto a existir discriminação aos quadrinhos, creio que a discriminação te atinge se você se deixar atingir. Sempre levei os quadrinhos a sério e nunca tive problemas com discriminação. Teve uma vez que estava no estúdio, na época que funcionava no centro de Fortaleza, e um cara entrou dizendo que o quadrinho ia se acabar. Eu o botei pra fora do estúdio e fim de papo. Tem gente que precisa saber respeitar o ganha pão dos outros.

 

Fale sobre o MANICOMICS, como surgiu a idéia e como novos artistas (nisto também me incluo, hehehe) podem ter suas histórias publicadas por ele? Quais seriam os requisitos básicos?

O Manicomics surgiu em 1996, quando alguns alunos da Oficina de Quadrinhos (que era um projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará) resolveram começar suas próprias publicações. Alguns nomes entraram e saíram da publicação sempre deixando sua marca pessoal. Da equipe original ficaram Daniel, Geraldo e eu, talvez por sermos os criadores do zine.

Para publicar no Manicomics é só enviar a hq em versão impressa para:

Caixa Postal: 52897/CEP: 60151-970/Fortaleza-CE. Não avaliamos hqs em formato digital e não garantimos que sua hq será publicada, mas estamos sempre procurando parceiros nessa batalha pelo quadrinho brasileiro. Os critérios de publicação são simples, porém a avaliação (em termos de fanzine) é muito rigorosa. Sempre alerto as pessoas de que não deixamos nossas relações pessoais intervirem no processo de escolha das histórias. Já tive que dizer “não” a várias pessoas que respeito bastante, mas isso foi preciso pra manter o nível das hqs que publicamos. Nós não remuneramos nossos colaboradores, mas isso não é motivo para atenuar nossos critérios de avaliação.

Os critérios básicos a serem seguidos são:

-As histórias devem ter começo, meio e fim. Não são aceitas hqs de continuação, nem em capítulos. Os motivos são simples, como publicação independente nós não sabemos se a próxima edição será publicada, e não queremos deixar o leitor curioso pelo final de uma hq que ele nunca vai ver. Já publicamos histórias de continuação, como no caso do Rato do Prédio e Kário. Mas isso só se deu devido a genialidade de seus autores (Falex e Jean Okada) e devido a nosso planejamento editorial, pois só publicamos essas hqs após recebermos todas as partes da história. Não temos intenção de publicar outras hqs com continuação. É muito frustrante pro leitor quando a edição seguinte atrasa, é cancelada ou quando o autor desiste da história.

-Damos preferência a histórias curtas, pois tentamos democratizar o espaço publicando vários autores e gêneros em uma mesma edição.

-Não há restrição de temática ou gênero, do infantil ao pornô, qualquer coisa pode ser publicada desde que se trate de uma hq divertida, compreensível, bacana pra ler.

- Evitamos publicar hqs cujo teor seja elocubrativo, pseudo-intelectualóide, ou viagens surrealistas. Evitamos publicar hqs que não sejam de fácil compreensão para o leitor médio. Não queremos ofender os intelectuais de plantão, mas para o Manicomics procuramos HQs claras, objetivas, divertidas, inteligentes mas compreensíveis. Isso não significa que temáticas adultas e abordagens maduras não tenham espaço na publicação.

- Enviem mais de uma Hq. Por uma questão de linha editorial sempre publicamos mais de uma HQ de cada colaborador. Isso ajuda o leitor a entender melhor o contexto do trabalho da cada autor.

- Desenho não é o principal requisito, mas tem que ser competente. Desenho fisionômico, anatomia, perspectiva, composição, narrativa visual, organização de idéias, quantidade de texto por quadro, tudo isso é avaliado.

Essas são diretrizes básicas, mas é bom lembrar que toda regra tem exceção.

Falando em Edições Independentes, quais edições um fanzineiro não deve deixar de ler, em sua opinião?

Em termos de zine o QI (do Edgar Guimarães), o Estado Independente e o Made in Quadrinhos são legais para conhecer o meio e saber quem está fazendo o quê. Agora por preferências pessoais eu indicaria o Areia Hostil, o Manicomics (obviamente) e uma revista que é a Brado Retumbante. Devoradores de Gibis (de José Magnago), Heróis Forever e Heróis Brazucas também estão na minha estante num lugar fácil de achar.

Quais os artistas nacionais que você admira no momento? E com Quais deles gostaria de poder trabalhar?

Admiro muito Jean Okada, Daniel Brandão, Alan Goldman, Lorde Lobo, Vagner Francisco, Leonardo Santana e Alexandre Lobão. O Brasil tem excelentes roteiristas tenho sorte de estar encaminhando trabalhos com boa parte dessas feras.

Analisando os Fanzines que estão saindo, qual ou quais deles foi uma grande revelação? (espero não te encrencar agora, hehehe)

Tem fanzine que é badalado por causa dos autores, outros por causa de seus editores, outro pelo conteúdo. É difícil pesar a receptividade de um fanzine e em termos de revelação, tem muita gente boa que está desaguando sua arte no meio alternativo por falta de espaço no mercado tradicional.

Falando de seus personagens, a Mulher Estupenda poderia ser considerada sua preferida ou você simplesmente tem mais facilidade em escrever histórias para a personagem?

Estou produzindo várias hqs da Mulher-Estupenda por várias razões. A razão prática é que são histórias simples e divertidas e ocupam pouco espaço aonde quer que sejam publicadas. A questão subjetiva diz respeito a explorar um sentimento de nostalgia que acredito estar presente em todo leitor de quadrinhos, e em mim também. Lembro da época em que eu comprava revistas em quadrinhos na banca do aeroporto. As revistas eram cheirosas, as aventuras faziam a gente viajar longe e esquecer o mundo e toda aquela diversão era muito barata. Hoje os quadrinhos tradicionais estão caros demais. Até os mangás que são pb e tem papel mais pobre também são caros. No Japão você lê 400 páginas pelo preço equivalente a uma passagem de ônibus. Ora, mas é claro que tem muito mais coisa errada nesse país do que o preço das revistas em quadrinhos. Ta com tempo que as pessoas esqueceram o que é vergonha na cara... Os políticos são os primeiros a dar mau exemplo, além disso tem toda uma tradição brasileira de que gente importante ou rica está acima da Lei. Pois é, com tanta coisa podre ao nosso redor, acho bastante saudável lembrar que houve um tempo em que sabíamos claramente quem era o mocinho e quem era o bandido.

Qual seu herói nacional preferido e por que?

Raio Negro, sem dúvida. Foi o primeiro super-herói brasileiro que eu conheci. Eu achava que só os americanos tinham super-heróis, era uma coisa de visão de criança. (O Fantasma, o Super-Homem, o Zorro, eram todos estrangeiros aí um belo dia eu esbarro com uma revista bonita grandona (para minhas mãos na época) cheirosa (risos) E o cara que desenhava tudo era um brasileiro... Só faltei ficar doido).

 Você poderia dizer que VIVE dos Quadrinhos? O que consegue fazer com o dinheiro que consegue deles?

Olha, durante um tempo deu pra pagar todas as minhas contas com as hqs que eu produzia para uma editora local, também tinha o jornal. Atualmente com ilustrações editoriais e publicidade, cursos, etc dá pra bancar algumas coisas, mas não dá pra viajar pra Europa... Ainda(risos) Mas creio que isso tende a se reverter não só pra mim, mas para muitos profissionais da área porque os quadrinhistas brasileiros estão cada vez mais conscientes e mais profissionais. Seja trabalhando para o mercado nacional ou para o mercado estrangeiro. Essa visão de profissionalismo, de respeito pela sua profissão e pelo trabalho do outro tende a germinar e dar bons frutos. Hoje é preciso ser multifacetado, polivalente, atacar em mais de um front. Se o artista se limitar ele definha.

 

Qual seu maior sonho?

Estou trabalhando para realizá-lo. Quando eu realizar te digo.

Essa foi boa. O que você acha do uso de referencias? Você copia algum artista?

A referência confere credibilidade e verossimilhança ao seu desenho, mesmo que seja um traço cartunizado. Como e que eu vou desenhar um cacapô da Nova Zelândia se eu nunca vi um bicho desse. (Por melhor que seja o roteirista é difícil descrever um pássaro que se parece com um cachorro:) Nesse caso o melhor seria pegar umas fotos do danado. O uso da referência tem que ser feito de modo inteligente pra você não ficar limitado a isso. A melhor referência de todas é a realidade, não tem como você botar um caderno de rabiscos debaixo do braço e ir pra fazenda desenhar vaca, carneiro, bode. Quanto a copiar um desenhista acho que não tem assim “um cara”. Sou inspirado pelos traços de centenas de artistas. No fim das contas acabo criando um seletor de freqüência para cada projeto. Por exemplo: o traço que uso nas HQs da Mulher-Estupenda é inspirado pelos autores dos anos 40 e 50 (CC Beck, Kurt Swan, Dick Sprang, Will Eisner, etc). Já nos projetos relacionados a mangá gosto do Masamune Shirow, Lee Myung Jim, Ozamu Tezuka. Durante uma fase qualquer de aprendizado copiar é muito positivo, é muito enriquecedor.

Qual ou quais artistas nacionais influenciam seu trabalho?

Marcelo Cassaro, Gedeone Malagola, Watson Portela. E tem uns artistas que são inspirações não só para o desenho, mas são lições de humildade e perseverança: Júlio Shimamoto e Flávio Colin.

Quantas histórias você já escreveu?

Tem umas 15 do Zohrn, 14 da Mulher-Estupenda, essas são contáveis porque estão no meu arquivo pessoal, na Oficina de Quadrinhos da UFC devo ter feito aproximadamente 20 a 25 hqs com temas e personagens os mais diversos, incluindo uma série de 100 páginas (nunca publicada integralmente). Depois tem as hqs com temas ligados a RPG, e material institucional, que deve dar umas 10. Já desenhei cowboy, ficção científica, cangaceiro, super-herói, humor, quadrinho experimental, acho que só não fiz ainda quadrinho erótico.

Olha, se eu te disser que só do Capitão Rapadura, (junto com Geraldo e Daniel) já fiz uma 1700 páginas. Ou seja, coisa pracaramba. Engraçado é que pouca gente sabe disso. Acham que porque a gente publica no meio alternativo nossa produção é baixa. Agora, número exato das hqs que já escrevi?!...Eu precisaria de um arquivista e um telepata para descobrir esse número. Mas tem uma coisa importante sobre isso: assim como muitas profissões o melhor jeito de aprender é fazendo. Já cometi uma poção de erros primários. Tenho certeza que minhas primeiras hqs são muito ruins, mas tenho aprendido com os erros e corrijo à medida que vou caminhando. Só espero que eu possa continuar errando novos erros e tendo oportunidade de aprender mais com eles.

Fale sobre você e o Mercado Brasileiro de Quadrinhos.

 Tem muita gente mais tarimbada que eu procurando um lugar ao sol nesse mercado sem encontrar. O artista iniciante é sempre meio ingênuo. Acha que vai se mudar pra São Paulo, onde fica o maior parque gráfico do Brasil, vai levar seus desenhos numa editora e no dia seguinte estará em todas as bancas com uma revista própria. Estou lutando por espaço do meu jeito, gostaria de achar espaços e trazer mais gente para esses espaços. É disso que precisamos e não de brigas tolas e batalhas de egos ou ilusões de grandeza. A gente precisa é de batalhadores, construtores, realizadores. Chega de gente cheia de falação é hora de arregaçar a manga e mandar brasa.

Existe algum contato ou provável contato entre você e o mercado Americano de Quadrinhos?

Já fiz Character Design para uma produtora Norte-Americana e algumas páginas de quadrinhos que não foram publicadas. Os contatos continuam. Todo trabalho é trabalho, se for honesto e envolver pessoas do bem eu embarco na hora. Seja pra ser publicado no Japão, Estados Unidos, Nova Zelândia, Patagônia ou Quixeramobim.

(risos) Dica para o iniciante: Como escrever bem uma HQ? O que não deve ser feito?

Clareza e Objetividade são primordiais. É bom ter as idéias organizadas e começar com coisas simples. Todo mundo que começa a escrever quadrinhos quer contar mega sagas, cheias de mundos paralelos, elementos demais, muitos nomes estranhos e conceitos pseudocientíficos revolucionários. O Flávio Colin dizia: ”É mais difícil simplificar do que caprichar!”. Concordo plenamente. Acho que todo autor deve começar aprendendo o básico.

Há alguns dias vi um artigo que dizia não ter nada a ver criar herói superpoderosos aqui no Brasil, que era sem lógica e pura imitação dos gringos, só valia se o personagem fosse cômico,  qual sua opinião a esse respeito?

 Dentro do espírito criativo vale tudo! Os Super-heróis são um gênero, assim como o romance, ou o terror. Ora, mesmo que o gênero tenha se originado na América do Norte, isso não impede os Russos de criarem excelentes tramas dentro deste gênero. É uma bobagem discriminar uma história por causa do seu gênero. É tão preconceituoso como dizer que negro não é gente, ou que brasileiro não pode fazer comédia romântica no cinema. Quanto ao fato de não haver lógica em criar seres superpoderosos no Brasil esta é uma afirmação no mínimo impensada. O gênero Super-Herói deriva do mito, da fábula. Na fábula pode tudo! Na criação artística pode tudo, o roteirista pode por alguns momentos reorganizar todo o universo e fazer com que ele seja justo e bom. Se essa não fosse razão suficiente para eu deixar meus filhos lerem hqs de super-heróis brasileiros ainda acharia mais uma: pelo menos esses não precisariam ter as piadas adaptadas pro nosso idioma e não estariam louvando a doutrina Bush e se pendurando em mastros da bandeira americana. Ainda sobre os super-heróis: os super-heróis como um todo, não tem lógica, o campo em que eles atuam é o campo do absurdo e não a nossa realidade. Será que o Super-Homem é mais verossímil porque foi criado nos Esteites? Nada. O Super-Homem continua sendo o mesmo absurdo. Mas dentro de uma narrativa você gera um processo de livre abdicação da realidade. Isso é uma espécie de contrato que você assina na hora que começa a ler uma hq ou na hora que compra um bilhete de cinema. Pelos momentos que se seguirem você está de acordo com abdicar da sua realidade e mergulhar no universo proposto por aquele quadrinho ou por aquele filme. Daí eu achar muito boba aquela frase “Ô filme mentiroso!”. Esta e uma afirmação redundante num filme como homem-Aranha. Se o filme é “mentiroso”? É óbvio que é mentiroso, a proposta dele é ser o mais mentiroso possível e nos afastar o quanto puder do nosso cotidiano.

Quais as características de um bom personagem?

Acho que um personagem pra ser bom ele ter que ser verdadeiro com seus propósitos. Se ele tiver atitudes muito mecânicas ou for sempre politicamente correto, corre o risco de virar moralista, chato, burocrático. Como o Capitão América. Também acho que o que faz o personagem é o autor. A situação que o autor cria para a vida desse personagem e o desenrolar dos eventos influem diretamente na visão que construímos desse personagem e na nossa opinião sobre o fato dele ser um bom personagem ou não.

Inspirou-se em algum outro personagem para criar os seus? ou uniu o útil ao agradável?

Cada personagem é fruto de um processo e traz consigo um discurso ligado a seu modo de vestir, as cores que estampa, o linguajar, a ideologia que defende. A criação de um personagem é uma manifestação também temporal e psicológica, pois seria impossível reproduzir as circunstancias de vida que levam um autor a germinar no cérebro a idéia de um personagem específico. O personagem é uma pessoa. É possível que após um tempo sem vê-la você tenha que se habituar a ele de novo, no reencontro. Alguns de meus personagens têm referências bem claras, como o Zohrn, que tem um pouco de Wolverine e de Conan; ou a Mulher-Estupenda e o Rapaz Assombroso (ajudante dela) que são inspirados nos personagens da era de ouro.

Lucy e Sky não têm um referencial direto, eles foram inspirados por tipos de pensamentos que todos nós temos. Lucy segue um padrão de comportamento revolucionário, questionador, incontrolável, pessimista; Sky, em contrapartida, apresenta aspectos otimistas. Não sei se isso tem relação com o fato da maioria das pessoas acharem que as mulheres amadurecem mais cedo que os homens, mas talvez seja por aí.Os personagens podem surgir de diversas maneiras, mas com o tempo e à medida que contamos suas histórias, eles crescem assim como as pessoas e se modificam um pouco com relação a seu caráter original.

O que faz nas horas vagas? Se é que você tem isso...

Sempre que posso vou ao cinema. Gosto de espetáculos teatrais e de dança, os movimentos da dança ajudam nossa compreensão de movimento e anatomia. Outra coisa que por falta de tempo não tenho feito muito é ler livros, atualmente estou meio limitado às leituras acadêmicas, mas gosto de leituras diversas.

Quanto custa a produção do MANICOMICS? Quais artistas estão participando este mês?

Não é tão caro bancar o Manicomics, o que complica é a periodicidade desses custos, pois existem uns meses no ano em que a renda fica abalada por causa das férias e coisas assim.

Vou dizer que artistas colaboram atualmente porque assim a resposta ganha em longevidade: Daniel Brandão, Alan Goldman, Antonio Eder, Ronaldo Mendes, Diego Silveira, Caetano Neto, Geraldo Borges, Jean Okada e logo teremos participações bem legais de autores que colaboram em outras publicações como Alexandre Lobão, André Diniz e Wagner Francisco.

Quando eu vou ter minha vaguinha? hehehehe brinacadeira.

Estou aguardando seu currículo :)

Por que o MANICOMICS é impresso e não para dowload como a maioria esta fazendo agora?

Estamos preparando os arquivos e logo será possível pegar todas as edições do Manicomics no site da Editora Nona Arte. Mas as edições impressas continuam.

Qual a melhor revista em Quadrinhos que leu até hoje?

Todas. Por pior que seja a revista ela acaba sendo a melhor em alguma coisa. Nem que seja a melhor revista que pude comprar porque estava desesperado para ler algum quadrinho esse fim de semana.

(Risos) Qual o melhor filme de Quadrinhos?

Superman I. Mas Homem-Aranha e X-men também geraram bons filmes. Estão produzindo aí um novo Super-Homem pro cinema, mas com tanta produção interessante feita com temas de quadrinhos vai ser uma pedreira. O Brian Singer vai ter uma responsabilidade imensa com essa produção, mas ele é novo e talentoso paca. É possível que ele faça um bom filme do Super. Já o Batman... Eu não acredito em nenhum Batman que não tenha capacidade de virar o pescoço pros lados durante uma briga(risos).

Qual o personagem ou personagens nacionais mereceria um filme?

Raio Negro, Velta e Ultrax.

Vida pessoal: existe uma senhora ao LADO (não gosto dessa história de ficar atrás!) do Grande JJ Marreiro? Talvez uma senhorita? hehehehe. Filhos?

Tenho a sorte de conviver com duas mulheres maravilhosas que me dão força quando estou pra baixo e acreditam em mim até quando eu mesmo duvido. Uma é minha mãe, e outra é minha namorada. A Mulher-Estupenda é minha homenagem a essas e a tantas outras mulheres: mães, namoradas, trabalhadoras, empresárias, professoras, diaristas, etc. As mulheres são as verdadeiras heroínas da nossa sociedade porque desempenham vários papéis no cotidiano e ainda têm que estar bonitas, lindas e maravilhosas no fim do dia. 

O que devemos esperar de seus personagens?

Que sejam adequados ao que se propõem. Que sejam honestos e levem o leitor à abdicação espontânea da realidade, que faça as pessoas embarcarem nas hqs junto com eles. Talvez seja muito a se esperar de um personagem. Talvez o melhor seja não gerar expectativas, e só aproveitar a diversão.

Qual atriz nacional faria o papel da Mulher Estupenda Num Filme?

Mari Alexandre ou alguma atriz ou modelo que caiba no uniforme. Mas não acho que um filme seria legal. Acho que a Mulher-Estupenda tem mais cara de seriado. Algo do tipo Mulher-Maravilha, Perdidos no Espaço ou Spectreman. Poucos efeitos especiais, muita imaginação e monstros de borracha com zíper aparecendo.

(risos) O que motiva JJ Marreiro?

O desafio de criar coisas que funcionem e possam minimamente alegrar o dia de alguém.

Frase preferida:

Construa e ele virá!

Mensagem para os Fãs:

É engraçado esse negócio de fã. Às vezes eu nem acredito que tem gente que lê minhas hqs e conhece os personagens e tudo. Ta com uns seis anos que não publico uma hq sequer de um personagem que tenho chamado Zohrn e ainda tem gente que lembra... Incrível. Aliás, outro dia começaram a me enviar desenhos em homenagem ao personagem e um amigo meu começou uma campanha pra fazer com que eu volte a desenhar o personagem. Menina, isso é muito legal. Obviamente vou atender o pedido do pessoal e logo-logo estarei voltando a produzir novas Hqs do Zohrn, mas antes disso, vou relançar as primeiras hqs dele numa publicação independente. Vai ter material bem antigo, algumas coisas até muito ruins, mas certamente divertidas. Isso é o mínimo que posso fazer por essas pessoas que se dignaram a lembrar do personagem e se engajar num movimento para tirá-lo da gaveta.

Foi prazer e uma honra te entrevistar, espero ter mais oportunidades como esta em breve! Valeu e Sucesso em seus projetos. Abração.

A honra foi minha em poder figurar num espaço tão legal relacionado a quadrinhos... E o melhor: quadrinhos brasileiros.

 

 

PERSONAGENS DE JJ MARREIRO:

 

Mulher Estupenda:

Nome Real: Carol Rosas

Ocupação: Professora

Zohrn: Um Elfo brigão e truculento.

Lucy e Sky: Para Lucy, o planeta está com os dias contados, os seres humanos são podres, vis, traiçoeiros e mesquinhos. A felicidade não passa de um estado supremo de ignorância e as baratas vão herdar a terra após uma hecatombe nuclear. Para Sky, o mundo é azul, redondo e perfeito. As pessoas são felizes e as nuvens são feitas de algodão. Lucy é a garota que Sky adora amar, e Sky é o garoto que Lucy adora odiar. Será que no fundo esta tira é apenas mais uma história de amor?

 

 

 

 

 

 

Algumas Ilustrações de JJ:

Falcão Negro
O Falcão Negro foi um dos primeiros heróis brasileiros de seriado de TV. O seriado foi exibido pela TV Tupi entre 57 e 64.

 

Raio Negro
O personagem foi publicado pelas editoras GEP, Grafipar, ICEA e Metal Pesado. Cerca de 190 páginas do Raio Negro foram produzidas pelo Gedeone Malagola, criador também do cangaceiro Milton Ribeiro, Hydroman, Meio Fio, Uk e Uka, Tom Terik, Steve Kirby, Eletra (uma heroína espacial) entre outros. O Raio Negro apesar de ter sido inspirado pelo Lanterna Verde, tinha aventuras totalmente diferentes, e uma personalidade que se enquadrava muito bem num herói brasileiro da época (anos 60).

Topman

Criação de Lorde Lobo. Ver dados;

http://fotolog.terra.com.br/zinebrasil:20

Prêmio de Melhor desenhista de 2004.
 
A revista Prismarte fez uma votação com seus leitores e escolheu os melhores de 2004. A versão do Lampião lhe rendeu o prêmio de melhor desenhista no ano de 2004. A versão do Lampião não tem nada de verídica, ela é totalmente fantasiosa. As hqs dessa série estão em fase de produção e incluem referências vindas do imaginário popular registrado na literatura de cordel.

 

MANICOMICS: 5 ULTIMAS EDIÇÕES.

 

Para adquirir entrar em contato com o artista pelo e-mail (acima).

 

***Não deixe de visitar a pagina do JJ Marreiro (endereço abaixo da foto de JJ) e conhecer seus outros trabalhos e ilustrações.

Abraços e Até a próxima!

 

Michelle Ramos.

 

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